Entre o início do século XVI e 1850, Portugal foi responsável pelo tráfico de cerca de 6 milhões de pessoas escravizadas — mais do que qualquer outra potência colonial europeia. A esmagadora maioria desse fluxo teve como destino o Brasil, que se tornaria o maior receptor de africanos escravizados de todas as Américas: quase 5 milhões de pessoas, segundo bancos de dados acadêmicos sobre o tráfico transatlântico. Quase três séculos desse comércio aconteceram enquanto o Brasil ainda era colônia — décadas, às vezes séculos, antes de existir como nação independente, em 1822.
Quando a independência veio, coube ao Brasil recém-nascido herdar não só a dependência econômica de mão de obra escravizada que a própria Coroa portuguesa havia construído, mas também, dali a duas gerações, toda a conta moral e histórica desse sistema. Portugal, que desenhou, financiou e lucrou com o tráfico por trezentos anos, seguiu adiante praticamente ileso.
Um traficante que virou barão
Os nomes existem, documentados. José Bernardino de Sá foi o maior traficante de escravos do Atlântico Sul no segundo quartel do século XIX: pesquisas acadêmicas contam ao menos 36 navios sob seu comando, responsáveis pelo desembarque de mais de 19 mil africanos só entre 1825 e 1851. Longe de ser punido, tornou-se Comendador, depois Barão e Visconde de Vila Nova do Minho — títulos reconhecidos pelo próprio Império brasileiro. Foi maior acionista do Banco do Brasil, dono de teatro, fazendas e palacetes na Corte. Morreu rico, em 1855, protegido pelas redes políticas que sustentava.
A conta que ninguém quis pagar aos escravizados
Quando a Lei Áurea finalmente extinguiu a escravidão, em 1888, o texto coube em dois artigos: não previu terra, educação, trabalho ou qualquer reparação às pessoas libertas. O silêncio não foi acidental. Leis anteriores, como a do Ventre Livre (1871) e a dos Sexagenários (1885), chegaram a discutir indenização — mas para os donos de escravos, pela "perda" de sua "propriedade". Foi justamente a ausência dessa indenização aos senhores que fez os latifundiários retirarem apoio da monarquia, contribuindo diretamente para a queda do Império um ano depois.
Queimaram os registros — mas nem todos
Em 1890, o então ministro da Fazenda, Rui Barbosa, ordenou a destruição dos documentos oficiais ligados à escravidão, alegando apagar "essa mancha" da história do país. Na prática, a ordem também apagava a base documental que poderia um dia embasar qualquer cobrança — fosse contra o Estado, fosse contra os antigos senhores. Ainda assim, cópias sobreviveram: a Lei do Ventre Livre exigia, desde 1871, o registro nominal de cada pessoa escravizada, incluindo o nome de seu proprietário. Parte dessas matrículas foi parar em cartórios e inventários de bens, e hoje está digitalizada em arquivos como o da Universidade Federal da Bahia — prova de que é possível, sim, saber quem escravizou quem.
Sobrenomes que continuam no poder
Portugal lucrou com o tráfico por trezentos anos. Quando a conta finalmente apareceu, foi apresentada a um Brasil que ainda nem existia.
Uma investigação da Agência Pública, publicada em novembro de 2024 e batizada de Projeto Escravizadores, cruzou cerca de 500 documentos — registros de cartório, jornais de época, pesquisa acadêmica — para rastrear a ascendência de 116 autoridades brasileiras do Executivo e do Legislativo. O resultado: 33 delas têm antepassados diretos donos de pessoas escravizadas — 4 dos 8 ex-presidentes desde o fim da ditadura, 13 dos 27 governadores em exercício e 16 dos 81 senadores.
Ex-presidentes: José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso.
Governadores: Carlos Brandão Júnior (PSB-MA), Cláudio Castro (PL-RJ), Eduardo Riedel (PSDB-MS), Fátima Bezerra (PT-RN), Gladson Cameli (PP-AC), Helder Barbalho (MDB-PA), João Azevêdo (PSB-PB), Jorginho Mello (PL-SC), Rafael Fonteles (PT-PI), Raquel Lyra (PSDB-PE), Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).
Senadores: Augusta Brito (PT-CE), Carlos Portinho (PL-RJ), Carlos Viana (Podemos-MG), Cid Gomes (PSB-CE), Ciro Nogueira (PP-PI), Efraim Filho (União Brasil-PB), Fernando Dueire (MDB-PE), Jader Barbalho (MDB-PA), Jayme Campos (União Brasil-MT), Luis Carlos Heinze (PP-RS), Marcos do Val (Podemos-ES), Marcos Pontes (PL-SP), Rogério Marinho (PL-RN), Soraya Thronicke (Podemos-MS), Tereza Cristina (PP-MS), Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB).
Para chegar a esses 33 nomes, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná trabalhou ao lado dos jornalistas cruzando cerca de 500 documentos — censos do século XIX, inventários post-mortem, registros paroquiais de batismo e casamento, a base de dados internacional SlaveVoyages — e usou inteligência artificial para decifrar manuscritos em letra cursiva de mais de cem anos, muitos deteriorados pelo tempo. Cada autoridade identificada recebeu a documentação com pelo menos 15 dias de antecedência para contestar as descobertas antes da publicação, caso quisesse.
A mesma investigação mostrou que dois em cada três empresários que apoiaram o golpe de 1964 também são herdeiros de fortunas escravocratas. A lista completa, com a genealogia documentada de cada nome, está publicada em https://apublica.org/especial/projeto-escravizadores-investigacoes-sobre-escravidao-no-brasil/.
Em 2023, o Ministério Público de Portugal chegou a abrir inquérito sobre os laços históricos do próprio Banco do Brasil com o financiamento da escravidão; o banco disse que não se oporia a eventuais reparações. Um ano depois, em abril de 2024, o presidente português Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu, pela primeira vez, a responsabilidade de Portugal por crimes cometidos durante o tráfico transatlântico e sugeriu a necessidade de reparação — sem, no entanto, apresentar qualquer proposta concreta de como ela aconteceria.
Nenhum descendente de traficante devolveu um centavo sequer ao Banco do Brasil. Nenhuma família que enriqueceu com gente escravizada devolveu uma fazenda. O Brasil pagou a Portugal por sua própria independência; ninguém, até hoje, pagou ao Brasil pelo que a escravidão custou a ele.