Antes dos números, uma correção rápida: a Coca-Cola não "roubou" o Papai Noel da Alemanha — o nome vem do holandês Sinterklaas, levado pelos colonos para Nova Amsterdã (futura Nova York) no século 17, e o visual gorducho de barba branca já existia desde os desenhos de Thomas Nast na Harper's Weekly (1863–1886), 50 anos antes de a Coca-Cola contratar Haddon Sundblom em 1931. A empresa não criou o mito; só o comprou pronto e o transformou em propaganda perene.
O resto da acusação, porém, é sólido — e os números são piores do que a maioria imagina.
A maior poluidora de plástico do planeta
Pelo sexto ano consecutivo, a Coca-Cola foi identificada como a marca que mais gera lixo plástico no mundo. No levantamento de 2023 da Break Free From Plastic — 8.804 voluntários, 41 países, 537 mil itens de lixo plástico auditados um a um, identificando a marca impressa em cada peça — produtos Coca-Cola apareceram em 40 países diferentes, mais do que qualquer outra empresa, somando 33.820 itens catalogados.
O mito da reciclagem
A Coca-Cola prometeu, em 2018, que 50% de suas embalagens seriam feitas de material reciclado até 2030. Em dezembro de 2024 a empresa reduziu essa meta para 35%–40%, agora com prazo estendido até 2035 — porque, segundo a própria empresa, os custos e a "dificuldade de escala" tornaram a meta original inviável. Na prática, apenas 17% do plástico usado em suas embalagens principais é reciclado hoje. E isso é o líder do setor: no mundo todo, segundo a OCDE, apenas 9% de todo o plástico descartado é efetivamente reciclado — quase metade vai parar em aterro e o resto é incinerado ou vaza direto para rios e oceanos, formando as ilhas de lixo flutuante que hoje se acumulam nos giros oceânicos do Pacífico e do Atlântico.
A sede que seca comunidades inteiras
Em Plachimada, no estado indiano de Kerala, uma fábrica de engarrafamento da Coca-Cola extraía 500 mil litros de água subterrânea por dia. Os poços da comunidade, majoritariamente indígena adivasi, começaram a secar e a água que sobrou saiu contaminada. Depois de anos de protesto popular, a licença da fábrica foi revogada em 2003 e a planta fechou definitivamente — mas o aquífero nunca se recuperou, e moradores relatam escassez de água potável até hoje, mais de duas décadas depois.
Em 2003, o Centre for Science and Environment de Nova Délhi encontrou resíduos de quatro pesticidas — incluindo DDT — em amostras de Coca-Cola e Pepsi vendidas na Índia, em concentrações até 36 vezes acima do limite europeu. Uma comissão parlamentar indiana confirmou os achados. Kerala baniu a venda dos produtos; a Coca-Cola e a PepsiCo levaram o caso à Justiça e, em 2006, a Alta Corte de Kerala derrubou a proibição por falta de competência legal do estado para impor a medida — a empresa venceu no tribunal, mas os resíduos encontrados nunca deixaram de ser reais.
Distorcer números para a Wall Street
Entre 1997 e 1999, a Coca-Cola induziu engarrafadoras no Japão a comprar, no fim de cada trimestre, mais concentrado do que precisavam — uma prática conhecida como gallon pushing — para inflar os resultados divulgados aos investidores sem informar isso ao mercado. Em oito dos doze trimestres daquele período, a manobra foi a diferença entre bater ou não a meta de lucro esperada por analistas. Em 2005 a SEC (a comissão de valores mobiliários dos EUA) fechou o caso com esta conclusão:
"A empresa violou as exigências antifraude e de divulgação periódica das leis federais de mercado de capitais ao não revelar o impacto do gallon pushing sobre os lucros correntes e futuros."
A Coca-Cola fechou acordo sem admitir nem negar culpa e sem pagar multa.
O que ela compra, e o custo de comprar
A Coca-Cola é a maior compradora de açúcar do planeta, segundo a Oxfam, controlando sozinha 25% do mercado global de refrigerantes. Essa escala tem lado B: a mesma Oxfam documentou casos de expulsão de comunidades de suas terras para dar lugar a plantações de cana que alimentam a cadeia de fornecimento da empresa no Brasil e no Camboja — parte de um relatório batizado, sem ironia nenhuma, de "Nada de doce nisso".
Também há o processo movido pelo sindicato colombiano Sinaltrainal, que acusou engarrafadoras da Coca-Cola na Colômbia de contratar ou dirigir milícias paramilitares responsáveis pelo assassinato de líderes sindicais entre os anos 1990 e 2000. A ação, de US$ 500 milhões, foi rejeitada por um tribunal federal americano em 2009 por falta de provas que ligassem diretamente a matriz aos crimes — o que não é o mesmo que dizer que os assassinatos não aconteceram, apenas que a Justiça americana não encontrou o elo jurídico necessário para responsabilizar a empresa por eles.
Nenhum item isolado nesta lista prova, sozinho, uma intenção deliberada de destruição. Juntos, formam o retrato de uma empresa que, há décadas, escolhe repetidamente a métrica de curto prazo — vendas, cota de mercado, custo de produção — sobre qualquer outra consideração, e que só recua quando confrontada por tribunal, protesto ou balanço de sustentabilidade forçado a divulgar o número real.
Fontes:
- BFFP Movement Unveils 2023 Global Brand Audit Results — Break Free From Plastic
- Plachimada Coca-Cola struggle — Wikipedia
- Coca-Cola & PepsiCo win legal battle to overturn Kerala's ban — Business & Human Rights Resource Centre
- Sinaltrainal v. Coca-Cola Co. — Wikipedia
- Coke Settles with SEC, DOJ Ends Probe — Accounting Today
- 9 Percent of Plastic Worldwide is Recycled, OECD Says — VOA News
- After 2 years, Coca-Cola's promise to scale up reusable packaging is dead — Grist
- Big food and drink companies must act to stop conflicts over land — Oxfam International
- Coca-Cola didn't invent modern image of Santa Claus — Snopes
- Santa Claus — Wikipedia
- Sinterklaas — Wikipedia