Em 2015, pesquisadores da Universidade Yale pediram a voluntários que explicassem como um zíper funciona. Metade do grupo pesquisou a resposta na internet antes de responder; a outra metade não pesquisou nada. Depois, ambos os grupos foram perguntados sobre o quanto se sentiam capazes de explicar assuntos completamente diferentes — sem relação nenhuma com zíperes. Quem tinha acabado de pesquisar no Google avaliou a própria capacidade de explicar qualquer coisa como mais alta, mesmo em assuntos que não tinha nem tocado. Esse experimento, publicado no Journal of Experimental Psychology, é um dos primeiros registros de laboratório de um padrão que o VERBO já discutiu em matéria anterior a respeito de inteligência artificial: o acesso fácil à informação é sistematicamente confundido, pelo próprio cérebro humano, com posse da informação. O que muda, de uma tecnologia pra outra, não é o mecanismo — é a escala.
Primeira onda: o Google e a ilusão de saber tudo
O nome técnico pro que a internet faz com a memória humana é "efeito Google" — descrito formalmente em 2011 por Betsy Sparrow, Jenny Liu e Daniel Wegner, num estudo publicado na revista Science. A descoberta central: quando as pessoas sabem que vão poder consultar uma informação depois, elas passam a lembrar pior o conteúdo em si e melhor onde encontrá-lo — o cérebro trata o mecanismo de busca como uma extensão da própria memória, um fenômeno que psicólogos já chamavam de "memória transativa" antes mesmo da internet existir (o exemplo clássico é o casal em que cada um lembra metade das coisas e confia que o outro lembra o resto). A diferença é que a internet virou esse parceiro de memória constante, disponível pra qualquer pessoa, sobre qualquer assunto, o tempo todo.
O problema é que esse hábito não fica restrito a "lembrar onde procurar" — ele se converte em confiança inflada sobre o que a pessoa acha que sabe de cabeça. É exatamente isso que o estudo de Yale citado acima mediu: ao longo de nove experimentos diferentes, pesquisar uma explicação na internet elevou a autoavaliação de conhecimento das pessoas mesmo em domínios não relacionados à busca — inclusive, num dos experimentos, elevando a autopercepção de atividade do próprio cérebro, medida por imagem de ressonância magnética funcional. A sensação de "sei tudo porque posso pesquisar tudo" não é força de expressão: é um viés cognitivo documentado, com nome e mecanismo.
Segunda onda: redes sociais dão palco pra quem nunca teve plateia
Se o Google ensinou o cérebro a confundir acesso com conhecimento, a década seguinte ensinou a confundir visibilidade com autoridade. Um estudo de 2023 comparando dados de eleitores finlandeses de 2008 e 2020 — antes e depois da explosão das redes sociais como fonte de notícia política — encontrou algo revelador: o excesso de confiança em conhecimento político estava especificamente ligado a depender de internet e redes sociais como fonte de informação, não a depender de mídia tradicional, e as redes sociais pareciam amplificar esse excesso de confiança justamente entre quem sabia menos. É importante registrar a ressalva que o próprio estudo faz: o aumento do fenômeno entre 2008 e 2020, olhando indivíduo por indivíduo, não chegou a ser estatisticamente significativo — o achado mais sólido é a ligação específica com uso de redes sociais, não uma prova definitiva de que "todo mundo piorou".
Ao mesmo tempo, pesquisas separadas mediram o que acontece quando a mesma pessoa passa a se exibir, e não só a se informar, nessas plataformas. A evidência mais sólida sobre isso não é um estudo isolado, e sim uma meta-análise: revisando 62 amostras de pesquisa, totalizando mais de 13 mil participantes, McCain e Campbell (Universidade da Geórgia) encontraram relação positiva e consistente entre narcisismo grandioso e uma série de comportamentos em rede social — tempo de uso, frequência de posts, número de seguidores e, especificamente, frequência de postar foto de si mesmo. Os efeitos, olhados individualmente, são modestos (coeficientes de correlação na faixa de 0,11 a 0,20, a depender do comportamento medido) — o que os próprios autores da meta-análise deixam claro é justamente isso: existe uma ligação real e replicada entre narcisismo e autoexposição em rede social, mas ela é gradual, não uma epidemia instantânea. Outro estudo, de 2023, testando diretamente a relação entre o efeito Dunning-Kruger e traços de personalidade em adultos jovens, encontrou diferença estatisticamente significativa em narcisismo entre o grupo que superestimava a própria competência e o grupo que se avaliava com precisão. Rede social não cria essa vaidade do nada — mas dá a ela, pela primeira vez na história, um palco permanente, disponível pra qualquer pessoa, sem edição e sem curadoria alheia.
Confundir acesso com conhecimento é um viés medido em laboratório desde 2015; confundir visibilidade com autoridade é um efeito colateral de rede social medido desde 2018; a novidade não é o vício — é a velocidade com que a terceira onda empilha os dois.
Terceira onda: a Inteligência Artificial como sensação de "implante" instantâneo
Como o VERBO já detalhou em matéria anterior, um modelo de linguagem não pensa — ele prevê a próxima palavra mais provável, e é justamente por isso que devolve resultado à altura de quem pergunta: sofisticado pra quem já sabe formular a pergunta certa, raso e enganosamente confiante pra quem não sabe. O que essa terceira onda acrescenta às duas anteriores é a intensidade da sensação: pesquisar no Google dá a impressão de "eu já sabia isso", rede social dá a impressão de "as pessoas acham que eu sei disso" — mas usar uma IA generativa devolve um parágrafo pronto, articulado, com aparência de domínio técnico completo sobre qualquer assunto, na hora, sem esforço de formulação nenhum. É a sensação mais parecida, entre as três ondas, com "ganhar" conhecimento de fábrica, ao invés de precisar construí-lo.
Existe pesquisa recente medindo exatamente esse efeito. Um estudo de 2025, publicado na revista científica Societies e conduzido com 666 participantes do Reino Unido de diferentes idades e formações (complementado por entrevista em profundidade com 50 deles), encontrou correlação negativa significativa entre uso frequente de ferramentas de IA e capacidade de pensamento crítico, com a chamada "descarga cognitiva" (a pessoa terceiriza pra máquina um raciocínio que deveria fazer sozinha) funcionando como o mecanismo que liga uma coisa à outra; participantes mais jovens mostraram maior dependência das ferramentas de IA e notas mais baixas de pensamento crítico do que os mais velhos, enquanto maior escolaridade apareceu como fator de proteção, independente do uso de IA. É um estudo correlacional, baseado em survey de uma única rodada e em autoavaliação — não prova, sozinho, que usar IA causa declínio de pensamento crítico, só que as duas coisas andam juntas nessa amostra, um limite que o desenho do próprio estudo não permite superar. Combinado com o que já documentamos na matéria anterior — o fato de que os próprios modelos de IA são treinados, via avaliação humana, pra soar confiantes e concordar com quem pergunta ("bajulação algorítmica") — o quadro que emerge é o de uma ferramenta desenhada, por incentivo comercial, pra devolver exatamente a sensação de competência instantânea que mais reforça o efeito Dunning-Kruger em quem já não sabia que não sabia.
O que essa lente das três ondas não prova — e onde ela é só um argumento, não um veredito
Vale registrar, com a mesma honestidade aplicada em toda matéria do VERBO: a comparação "três ondas" apresentada aqui é uma leitura editorial, uma forma de conectar achados de pesquisa que, isoladamente, tratam de tecnologias diferentes, em décadas diferentes, medidas por metodologias diferentes — não existe um único estudo científico que meça as três juntas como um fenômeno progressivo unificado. Cada achado individual, porém, é real e verificável: o efeito Google sobre a memória, a inflação de autoconhecimento pela busca, a ligação entre redes sociais e excesso de confiança política, o aumento de narcisismo pelo uso visual intenso de redes sociais, e a queda de pensamento crítico associada à descarga cognitiva em ferramentas de IA — cada um desses cinco achados tem citação própria, independente, na lista de fontes abaixo. Também vale lembrar, como já registrado na matéria anterior sobre IA, que o próprio efeito Dunning-Kruger tem crítica metodológica séria publicada contra ele — o debate acadêmico sobre a explicação exata do fenômeno segue aberto, mesmo que o padrão comportamental de fundo continue bem documentado.
Por que isso importa pra quem usa essas ferramentas todo dia
Nenhuma das três ondas, sozinha, é motivo pra abandonar busca, rede social ou IA — são ferramentas genuinamente úteis, e o próprio VERBO usa as três pra produzir este site, incluindo a PixIA na redação. O ponto não é o uso: é a ausência de consciência do efeito. Quem sabe que pesquisar infla a sensação de conhecimento tende a checar a fonte antes de repetir o que leu; quem sabe que rede social recompensa exibição, não precisão, tende a desconfiar mais do próprio impulso de "ensinar" um assunto que aprendeu ontem; e quem sabe que a IA foi treinada pra soar confiante e concordar, não necessariamente pra estar certa, tende a validar a resposta antes de agir sobre ela — principalmente quando o assunto envolve saúde, dinheiro ou decisão importante. A terceira onda não é mais perigosa porque a tecnologia é pior que as anteriores. É mais perigosa porque entrega a sensação de competência mais rápido, com menos esforço, do que qualquer geração de tecnologia anterior jamais entregou.
Fontes:
- Searching for Explanations: How the Internet Inflates Estimates of Internal Knowledge — American Psychological Association (Fisher, Goddu & Keil, 2015)
- Searching for explanations: How the Internet inflates estimates of internal knowledge — PubMed
- Google Effects on Memory: Cognitive Consequences of Having Information at Our Fingertips — Sparrow, Liu & Wegner, 2011 (texto integral hospedado por Harvard)
- Illusion of knowledge: is the Dunning-Kruger effect in political sophistication more widespread than before? — Åbo Akademi University (Rapeli, 2023, Journal of Elections, Public Opinion and Parties)
- Narcissism and Social Media Use: A Meta-Analytic Review — McCain & Campbell, 2016, *Psychology of Popular Media Culture* (texto completo hospedado pela University of North Carolina Wilmington)
- Presence or absence of Dunning-Kruger effect: Differences in narcissism, general self-efficacy and decision-making styles in young adults — Current Psychology (Christopher, Padmakumari & Herbert, 2023)
- AI Tools in Society: Impacts on Cognitive Offloading and the Future of Critical Thinking — RePEc/IDEAS (Gerlich, 2025, Societies)