"Open source" virou sinônimo de democracia digital no imaginário popular. Qualquer pessoa pode ler o código do kernel Linux, propor mudanças, até bifurcar o projeto inteiro. Na prática, porém, quem decide o que entra na próxima versão é um grupo pequeno de mantenedores — a maioria empregada por poucas empresas.

Segundo relatórios anuais da Linux Foundation, mais de 80% das contribuições ao kernel vêm de desenvolvedores pagos por empresas como Intel, Google, Red Hat, Huawei e Meta. Isso não é um segredo — é público. Mas raramente é debatido.

Governança não é o mesmo que licença

A licença GPL garante que o código permaneça livre. Ela não garante que a agenda técnica do projeto seja neutra. Prioridades de segurança, suporte a hardware e até decisões de arquitetura tendem a refletir os interesses de quem paga os salários dos mantenedores mais ativos.

Código aberto descreve uma licença. Não descreve quem senta à mesa quando a decisão é tomada.

Isso não torna o modelo ruim — o Linux ainda é, de longe, mais aberto que qualquer alternativa proprietária. Mas tratar "open source" como sinônimo automático de poder distribuído é ignorar quem, de fato, financia a manutenção da infraestrutura que sustenta o mundo digital.

Os números de contribuição ao kernel citados aqui vêm dos relatórios anuais da própria Linux Foundation, publicados em https://www.linuxfoundation.org/press/press-release/the-linux-foundation-releases-linux-development-report.