Estima-se que mais de 25 milhões de indígenas viviam na América do Norte antes da chegada dos colonizadores europeus, falando cerca de 2 mil línguas diferentes. Ao fim das chamadas "guerras indígenas", no final do século XIX, restavam menos de 2 milhões — menos de 10% da população original. Para o etnólogo Ward Churchill, da Universidade do Colorado, o processo caracterizou-se como "um enorme genocídio, o mais prolongado que a humanidade registra".

Não foi acidente, epidemia isolada ou destino manifesto abstrato. Foi política de Estado, sustentada por mais de um século por sucessivos governos dos Estados Unidos — com instrumentos concretos: recompensas em dinheiro pagas por escalpos indígenas, cobertores contaminados com varíola distribuídos deliberadamente entre comunidades, e milícias financiadas diretamente pelos cofres públicos para caçar populações inteiras.

Uma política, não uma tragédia natural

Só na Califórnia, entre 1850 e 1852, o estado destinou quase 1 milhão de dólares a milícias criadas especificamente para exterminar indígenas; entre 1854 e 1859, mais 500 mil dólares foram somados a esse orçamento, metade reembolsada pelo próprio governo federal. O resultado, entre 1846 e 1873, foi um mínimo de 9,4 mil e um máximo estimado de 16 mil indígenas californianos mortos, em mais de 370 massacres documentados — além de milhares de crianças sequestradas para trabalho forçado.

O padrão se repetiu por todo o território. Em novembro de 1864, no Massacre do Riacho de Areia (Sand Creek), tropas americanas mataram mais de 100 cheyennes que estavam sob bandeira de proteção do próprio governo, liderados pelo chefe Chaleira Preta. Em dezembro de 1890, em Wounded Knee, a Sétima Cavalaria matou cerca de 250 indígenas, a maioria mulheres e crianças. "Tentamos correr, mas eles nos alvejavam como se fôssemos búfalos", relatou uma sobrevivente.

Deslocar, confinar, apagar

Entre 1831 e 1838, cinco povos — cherokee, chickasaw, choctaw, creek e seminola — foram removidos à força de suas terras na chamada Trilha das Lágrimas, caminhando milhares de quilômetros sob custódia do próprio exército americano. Um terço dessa população morreu no percurso; só entre os choctaw, as estimativas vão de 2,5 mil a 6 mil mortes.

A Suprema Corte dos Estados Unidos, na chamada Trilogia Marshall, formalizou juridicamente esse apagamento: recusou-se a reconhecer as nações indígenas como soberanas e livres, reduzindo-as, na letra da lei, a "nações domésticas dependentes". Entre 1871 e 1934, a política oficial passou à assimilação forçada — crianças eram retiradas de suas famílias e punidas por falar suas línguas, usar suas roupas ou praticar suas cerimônias.

O faroeste que reescreveu a história

Enquanto isso acontecia, e nas décadas seguintes, a indústria do cinema construiu a narrativa que o público até hoje reconhece como "história do Velho Oeste": o indígena retratado como bárbaro primitivo, ameaça a ser contida, obstáculo ao progresso — e o homem branco armado, geralmente um cowboy ou um soldado, como herói civilizador. O faroeste não inventou o extermínio; ele o reembalou como aventura, deu-lhe trilha sonora e vendeu ingressos.

Gerações inteiras aprenderam a história dos Estados Unidos por esse filtro. Não apenas entretenimento, mas doutrina: o mocinho de chapéu branco defendendo a "civilização" contra o "selvagem" normalizou, para o público doméstico e internacional, um extermínio que já havia sido política e economicamente decidido décadas antes de as câmeras começarem a rodar.

A conta que nunca chegou

Em junho de 2019, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, reconheceu formalmente, em nome do estado:

Isso é o que foi: um genocídio. Não há outra maneira de descrevê-lo.

Foi um reconhecimento estadual, isolado, mais de 150 anos depois dos fatos. Não existe, até hoje, nenhum reconhecimento federal equivalente — nem um programa de reparação financeira direta aos povos indígenas nos moldes do que a Alemanha construiu para sobreviventes do Holocausto e seus descendentes. A Alemanha manteve esse compromisso, imperfeito mas real, por décadas. Os Estados Unidos nunca fizeram o equivalente pelas nações que exterminou dentro de seu próprio território.

O que existe, em vez disso, são tratados descumpridos, terras nunca devolvidas e uma narrativa cultural — sustentada por décadas de cinema — que ainda hoje dificulta que o país trate o próprio passado pelo nome que ele tem.

Os massacres, as políticas de recompensa por extermínio, a Trilha das Lágrimas e a Trilogia Marshall citados aqui estão documentados, com fontes primárias, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Genoc%C3%ADdio_ind%C3%ADgena_nos_Estados_Unidos.