Esta matéria começou como uma conversa com o ChatGPT. A pergunta era abstrata: como seria, em tese, "um regime belicista bipartidário disfarçado de democracia"? O modelo respondeu com seis características — bipartidarismo controlado, estado permanente de guerra, economia dependente da indústria bélica, polarização artificial da população, entre outras. Quando perguntado se essa definição batia com algum país real, respondeu sem rodeios: os Estados Unidos.

Um chatbot pode articular uma tese elegante, mas não é fonte de dado nenhum. Fomos checar quais das afirmações resistem a número real — e o que sobrou foi mais concreto do que a conversa original.

A conta

Em 2024, os Estados Unidos gastaram US$ 997 bilhões em defesa — 37% de todo o gasto militar do planeta em um único país, mais do que os nove países seguintes da lista somados, incluindo China, Rússia, Alemanha, Índia, Arábia Saudita, Reino Unido, França e Japão juntos. O número faz parte do levantamento anual do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), a referência global em dados de gasto militar, e representa 66% de todo o orçamento de defesa combinado da OTAN.

O aviso que veio de dentro do sistema

A ideia de que os EUA tinham um problema estrutural nesse desenho não nasceu de crítico externo. Em 17 de janeiro de 1961, no discurso de despedida da presidência, o general Dwight Eisenhower — o mesmo que comandou as forças aliadas na Segunda Guerra — cunhou a expressão que nomeia o fenômeno até hoje:

"Devemos nos precaver contra a aquisição de influência injustificada, buscada ou não, pelo complexo industrial-militar. O potencial para a ascensão desastrosa de um poder mal empregado existe e vai persistir."

Eisenhower descreveu o problema como algo "novo na experiência americana": a conjunção entre um imenso aparato militar permanente e uma indústria de armas do tamanho de uma nação. Isso foi dito por um general de cinco estrelas, de dentro da Casa Branca, 64 anos atrás — e o aparato que ele descreveu não parou de crescer desde então.

A porta giratória

O elo entre governo e indústria bélica não é metáfora, é cargo. Em 2022, 672 ex-funcionários do governo e do Congresso passaram a atuar como lobistas, conselheiros ou executivos das vinte maiores empreiteiras de defesa dos EUA — 91% deles como lobistas registrados. Entre generais e almirantes de quatro estrelas que se aposentaram nos últimos cinco anos, mais de 80% (26 de 32) foram trabalhar para a indústria de armas como conselheiros, consultores ou lobistas.

O dinheiro segue o mesmo caminho de volta. Entre 2020 e 2024, US$ 771 bilhões em contratos do Pentágono — um terço de tudo o que foi gasto no período — foram para apenas cinco empresas: Lockheed Martin, RTX (ex-Raytheon), General Dynamics, Boeing e Northrop Grumman. Só a Lockheed Martin recebeu US$ 313 bilhões, mais do que o dobro da segunda colocada. Para efeito de comparação, o governo americano investiu, no mesmo período, mais do que o dobro nessas cinco fabricantes de armas do que em toda a diplomacia e assistência internacional combinadas. Contratados privados hoje absorvem 54% do orçamento discricionário do Pentágono — eram 41% nos anos 1990.

Dois partidos, um orçamento

Se existe algo que democratas e republicanos aprovam junto, ano após ano, sem exceção, é o orçamento militar. A Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) virou lei nos últimos 64 anos fiscais consecutivos — nenhum outro tipo de legislação nos EUA tem esse histórico de aprovação ininterrupta. A versão mais recente passou na Câmara por 312 votos a 112, com apoio das duas bancadas.

Não é um detalhe de procedimento. É a evidência mais direta de que, na prática, o gasto de guerra é a única política pública americana blindada da alternância partidária.

O ChatGPT fechou a conversa original com uma frase que resume bem o que os números acima confirmam, com uma ressalva: não é o sistema político americano que é fraudulento — é que ele foi desenhado para que a alternância entre dois partidos nunca alcance o orçamento que sustenta a máquina de guerra. Na síntese do próprio modelo, é um teatro democrático com roteiro militar, onde o povo vota, mas o sistema decide.

Fontes: