Mercado Livre, iFood, Uber e Airbnb somam algo perto de todo o comércio eletrônico, delivery, transporte e hospedagem de curta duração que um brasileiro médio usa no dia a dia. E boa parte do país assume, sem checar, que pelo menos as duas primeiras são empresas brasileiras — afinal, falam português, aparecem em toda propaganda nacional, e uma delas nasceu literalmente aqui. Nenhuma das quatro é brasileira. Isso muda o que resta no país quando a conta fecha no fim do mês.
Cada dono, cada sede
O Mercado Livre foi fundado em 1999 pelo argentino Marcos Galperin, tem sede em Montevidéu, no Uruguai, e é negociado na Nasdaq americana sob o código MELI — Galperin é hoje o homem mais rico da Argentina. O iFood nasceu de fato no Brasil, em 2011, mas desde agosto de 2022 é 100% controlado pela Prosus, holding de investimentos holandesa ligada à sul-africana Naspers, que pagou até R$ 9,4 bilhões pela fatia que ainda não tinha. Uber Technologies é americana, sede em San Francisco, listada na Bolsa de Nova York, sem dono único — os maiores acionistas são gestoras de fundos americanas como Vanguard e BlackRock. Airbnb também é americana, sede em San Francisco, capital aberto na Nasdaq, fundada por três americanos que ainda detêm fatias relevantes da empresa.
A fatia que cada uma tira
No Mercado Livre, a comissão sobre uma venda varia de 10% a 19% dependendo da categoria e do tipo de anúncio, mais custo fixo sobre produtos de menor valor. No iFood, restaurantes sem os planos mais caros pagam entre 23% e 27% de comissão por pedido — podendo passar de 30% somando taxa de pagamento em praças específicas, segundo reportagens do setor. A Abrasel (associação de bares e restaurantes) já levou a discussão à Câmara dos Deputados, que abriu comissão para questionar se o iFood exerce posição de monopólio no delivery brasileiro.
Uber é o caso mais grave, e também o mais documentado: um estudo do professor Len Sherman, da Columbia Business School, aponta que a fatia média retida pela empresa já ultrapassa 50% do valor pago pelo passageiro em diversas cidades. No Brasil, existe proposta em debate no Congresso para limitar em 30% a comissão retida por corrida — o que, por si só, indica que hoje ela costuma passar disso. Em abril de 2026, a Agência Pública revelou que a "Uber Conta", operada pela financeira Digio, chega a reter 100% do valor de corridas de motoristas endividados com a própria plataforma.
Airbnb é a exceção nessa conta: a taxa cobrada do anfitrião gira entre 4% (modelo de taxa dividida) e 16% (preço simplificado), mais até 14,2% do hóspede — abusiva não é a taxa da plataforma em si, é o efeito que ela tem no mercado imobiliário, adiante.
A uberização que o STF ainda não resolveu
Motoristas de aplicativo não têm vínculo empregatício reconhecido — mas essa é, hoje, a pergunta central de um julgamento em aberto no Supremo Tribunal Federal (Tema 1291), com mais de 10 mil processos parados na Justiça do Trabalho esperando o resultado. O TST já entendeu, em decisões anteriores, que existe subordinação: o motorista não escolhe o preço da corrida nem o percentual retido, só o horário em que trabalha, e pode ser desligado unilateralmente pela plataforma — para o tribunal trabalhista, isso configura "subordinação algorítmica". A Advocacia-Geral da União propõe um meio-termo: um regime intermediário, com proteção previdenciária e remuneração mínima, sem vínculo formal.
O motorista não decide o preço da corrida, não decide o quanto fica com ele, e pode ser desligado a qualquer momento por um algoritmo. Chame isso do que quiser — só não chame de autonomia.
Uma pesquisa da rede Fairwork, com pesquisadores de quatro universidades federais (UFRGS, UFRJ, UnB e UFPR), analisando dez plataformas entre 2023 e 2025, encontrou 92% dos motoristas de aplicativo brasileiros endividados.
O que a lei já exige — e o que falha na prática
Diferente do que muita gente assume, não é verdade que motorista de app circula sem nenhuma exigência: o seguro de Acidentes Pessoais de Passageiros (APP) é obrigatório por lei federal (Lei 13.640/2018) para quem faz transporte remunerado privado individual, e municípios como São Paulo já exigem alvará e autorização específica — apoiados na Lei de Mobilidade Urbana (Lei 12.587/2012) — para motorista de aplicativo circular, incluindo comprovação de idoneidade e exames de saúde. O problema não é ausência total de regra: é que a regulamentação varia de prefeitura para prefeitura, em mais de 5.500 municípios, com fiscalização desigual — e nenhuma dessas exigências resolve a questão trabalhista que segue em aberto no STF.
Airbnb e o aluguel que sobe mais que o resto
A Airbnb movimentou quase R$ 100 bilhões na economia brasileira em 2024, segundo estudo da FGV, sustentando 627,6 mil empregos e gerando R$ 8 bilhões em impostos diretos — números reais, que qualquer piece honesta sobre a empresa precisa registrar. Ao mesmo tempo, em Florianópolis — uma das cidades com maior concentração de imóveis na plataforma, mais de 30 mil anúncios ativos — o aluguel médio chegou a R$ 53,83 o metro quadrado em 2024, o segundo mais caro do Brasil, com alta acumulada de 58% acima do salário mínimo regional em oito anos. Moradores e vereadores locais argumentam que a concentração de imóveis de curta duração é parte direta dessa pressão de preço — uma relação de causa discutida, não uma sentença fechada, mas presente em praticamente todo debate sobre regulação do setor no país.
O fio que liga tudo isso
Nenhuma dessas quatro empresas é ilegal por ser estrangeira — o problema não é a nacionalidade do capital, é a escala com que ele decide preço, renda de quem trabalha embaixo da plataforma, e o custo de morar em cidades inteiras, sem que o Brasil tenha, hoje, capacidade regulatória equivalente à escala dessas empresas. VERBO já mostrou como isso se repete na dominação do e-mail e da distribuição de conteúdo — leia aqui. O padrão é sempre o mesmo: decisão tomada fora, custo pago aqui.
Fontes:
- Mercado Livre — Wikipédia
- Prosus adquire controle total do iFood por até R$ 9,4 bilhões
- Uber Technologies — perfil de acionistas, Yahoo Finance
- Airbnb, Inc. — Wikipédia
- Comissões do Mercado Livre por categoria
- Comissão iFood chega a 31%
- Comissão da Câmara questiona monopólio do iFood no delivery
- Uber amplia participação nas tarifas para até 50%
- Agência Pública — Uber Conta retém até 100% de corridas de motoristas endividados
- STF inicia julgamento sobre vínculo de emprego de motoristas de apps
- Taxas de serviço do Airbnb — Central de Ajuda oficial
- Airbnb movimentou quase R$ 100 bi na economia brasileira em 2024 — estudo FGV