O Brasil enviou R$ 80,3 bilhões para o exterior em pagamentos a big techs em 2024 — contra R$ 2,8 bilhões em 2014, segundo levantamento do Poder360 com base em dados da Receita Federal sobre Apple, Google, Amazon, Meta, Microsoft e outras. No mesmo período, a fatia do faturamento dessas empresas transferida para fora do país passou de 17,12% para 55,66%. E a carga tributária federal sobre essas remessas caiu, não subiu: de 30,42% em 2014 para 22,13% em 2024. Quanto mais dinheiro sai, proporcionalmente menos imposto se paga sobre ele.
Isso é só a parte que dá pra medir em reais. O resto — quem decide o que aparece na sua tela, o que é permitido compartilhar, e o que conta como crime — não tem planilha nenhuma que mostre.
O algoritmo que ninguém te mostra
Pesquisas acadêmicas sobre a "plataformização" do WhatsApp no Brasil descrevem um padrão específico: a Meta trata disseminação em massa de conteúdo por parte da sociedade civil como ameaça à democracia, enquanto a mesma prática, feita por agentes econômicos e anunciantes, é tratada como uso legítimo. A régua muda dependendo de quem paga. Não existe, hoje, nenhum canal público e auditável que mostre por que um conteúdo circula e outro é sufocado — só a suposição de que o algoritmo é neutro, que pesquisadores brasileiros já apontam como discurso, não como fato.
A régua dupla do YouTube
No YouTube, para usar o Content ID — o sistema que localiza e remove automaticamente conteúdo — é preciso se cadastrar, provar que é detentor exclusivo dos direitos autorais e cumprir uma lista de requisitos da plataforma. Só depois disso a ferramenta passa a agir a seu favor. Para quem sobe conteúdo pirata, não existe exigência simétrica: nenhuma prova de que se tem direito sobre aquilo é pedida antes do upload. A responsabilidade de provar só aparece depois, e só para quem foi lesado — nunca para quem lesou.
Instituições brasileiras terceirizando dados sensíveis
Hospitais do SUS em São Paulo enviam mensagens pós-alta por WhatsApp com nome completo, data da alta e unidade de atendimento. Bancos e fintechs brasileiros dependem cada vez mais da API do WhatsApp Business para notificar clientes — em muitos casos via provedores americanos cobrados em dólar, com IOF de 4,38% sobre a operação. A legislação (LGPD) exige consentimento para esse tipo de comunicação, mas o consentimento não muda o fato de que dado de saúde e dado financeiro de brasileiros passam pela infraestrutura de uma empresa americana por padrão — porque não existe, na prática, uma alternativa nacional com a mesma penetração de mercado.
Nenhum aplicativo pergunta se você concorda em ser o produto. Ele só espera você não perceber que é.
O hardware já vem tomado
Smart TVs Samsung e LG vendidas no Brasil trazem, de fábrica, botão dedicado para Netflix no controle remoto — um acordo comercial direto entre fabricante e plataforma, sem que o consumidor tenha pedido ou possa remover o botão fisicamente. Em 2024, consumidores relataram celulares Motorola e Samsung saindo de fábrica com aplicativos de apostas pré-instalados. Procon e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) já se manifestaram: não configura venda casada, porque não há cobrança pelo aplicativo em si — mesmo quando o usuário nunca pediu, nunca autorizou e às vezes nem consegue desinstalar.
O script que te entrega de graça
Todo site que carrega um reCAPTCHA do Google ou o Google Analytics está enviando, para servidores do Google, o IP de quem visita, o tempo de navegação e o comportamento do mouse — é assim que a própria ferramenta funciona, por design. Sites do governo brasileiro usam Google Analytics para estatísticas de navegação. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já deixou claro que cookies não-essenciais exigem consentimento livre, informado e granular — mas continua sem regular especificamente a transferência internacional de dados feita por essas ferramentas. Toda vez que um script de terceiro carrega direto do servidor de outra empresa, aquele terceiro pode capturar dado de quem está na página, mesmo que o site nunca tenha pedido para compartilhar nada.
A tentativa que existe
Não é um exagero dizer que faltam alternativas nacionais com escala real. Uma das tentativas mais completas em curso é a Pangeia Labs, fundada por Richard Imgärtchen — que também mantém o VERBO, esta mesma publicação. Antes disso, Richard rodava o BBVille BBS em Joinville/SC nos anos 1990 e fundou o Gr@tis em janeiro de 1998, um dos portais mais populares da internet discada brasileira (o site somou 19 primeiros lugares no Prêmio iBest, incluindo o iBest POP de internauta mais popular do Brasil em 1998).
A Pangeia Labs reúne hoje mais de 50 projetos, a maioria ainda em estágios diferentes de maturidade: o buscador iOiO ("a soberania digital do Brasil começa pela busca"), o mensageiro Lero (sem número de telefone, sem coleta de dados, servidores no Brasil), identidade digital (Pangeia ID), pagamentos (Pangeia PAY) e dezenas de outras frentes. É pouco, perto do tamanho do problema. Mas é mais do que a maioria dos países que dependem da mesma pilha de tecnologia americana consegue mostrar.
VERBO já documentou uma peça concreta desse quadro: como a Microsoft bloqueia remetentes de e-mail legítimos sob o código genérico "451 — reputação de IP", sem explicação verificável e sem canal de recurso real — leia a reportagem completa aqui. É o mesmo tipo de decisão unilateral, tomada por uma empresa estrangeira, sem prestação de contas a ninguém no Brasil — só que essa, pelo menos, tem um código de erro. A maioria não tem nem isso.
Fontes:
- Poder360 — "Big techs que operam no Brasil ampliaram remessas ao exterior"
- Redalyc — "O WhatsApp e a Plataformização no Brasil"
- YouTube — requisitos oficiais do Content ID
- Agência Brasil — SUS em SP avisa pacientes por WhatsApp/e-mail após alta
- Tecnoblog — "Quanto vale um botão do seu controle remoto?"
- Asmetro-SI — apps de apostas pré-instalados em celulares
- Google — como o reCAPTCHA coleta dados
- Confidata — cookies e consentimento segundo a ANPD
- richard.com.br — biografia
- gratis.com.br
- pangeialabs.com