Estima-se que entre 50 e 60 milhões de pessoas viviam nas Américas antes de 1492 — cálculo que varia de 8 a mais de 100 milhões dependendo do método, mas que converge nessa faixa nos estudos mais citados academicamente. No México, a população pré-colombiana de cerca de 37 milhões caiu para aproximadamente 1 milhão em menos de um século de colonização espanhola — uma queda de 97% dentro de uma única vida humana esticada.
Não foi uma tragédia natural. Foi conquista militar, escravização, trabalho forçado e doenças que se espalharam justamente porque a estrutura social indígena foi deliberadamente desmontada. E foi também o início de um sistema que arrastou um segundo povo para dentro da mesma máquina: pessoas sequestradas na África Ocidental, escravizadas e despachadas para substituir a mão de obra indígena que a Coroa espanhola vinha dizimando rápido demais para seu próprio proveito.
Trabalho forçado até a morte
Depois da descoberta de prata no Cerro Rico de Potosí, em 1545, a Coroa espanhola impôs a mita — sistema de trabalho forçado que recrutava compulsoriamente comunidades indígenas inteiras para descer às minas. Turnos de até 16 horas, desabamentos, silicose, desnutrição: gerações de mineiros indígenas morreram para extrair a prata que sustentou o Império espanhol por dois séculos. Fontes populares citam até 8 milhões de mortos somando mita e encomienda ao longo desse período; historiadores discordam sobre a precisão exata desse número, mas não sobre a escala — na casa dos milhões, sustentada por um sistema de trabalho concebido para ser descartável.
Cartagena: ouro saindo, gente entrando
Cartagena de Indias virou o principal porto de escoamento do saque espanhol na América do Sul. As expedições de Pedro de Heredia, a partir de 1533, saquearam sepulturas e templos do povo zenú em busca de ouro — uma única peça, um porco-espinho de ouro maciço, pesava quase 60 quilos. A cidade se tornou o ponto de saída da prata de Potosí rumo à Espanha.
O mesmo porto que embarcava ouro e prata para a Espanha desembarcava, na volta, pessoas sequestradas na África para substituir os indígenas que a Coroa vinha matando rápido demais.
No século XVII, Cartagena já era um dos maiores mercados de pessoas escravizadas do hemisfério ocidental, centrado na Plaza de los Coches, operando sob o sistema de asiento — licenças que a Coroa espanhola vendia a comerciantes estrangeiros para trazer pessoas sequestradas da África, já que a própria Espanha não mantinha entrepostos no continente africano. Foi o mesmo roteiro naval repetido por séculos: navios saíam cheios de metal precioso e voltavam cheios de gente escravizada — dois povos diferentes, alimentando a mesma economia colonial.
Em Cuba, colônia espanhola, a escravidão só foi formalmente abolida em 7 de outubro de 1886. A Espanha seguiu participando do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas até 1867 — cinquenta anos depois de proibi-lo para seus próprios cidadãos, em 1817. Mais um caso, como o de Portugal, de proibição no papel que não impediu o lucro na prática.
Quinhentos anos depois, sem pedido de desculpas
Em março de 2019, o então presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador enviou uma carta ao rei Felipe VI da Espanha e ao Papa pedindo reconhecimento público dos abusos cometidos durante a conquista, propondo uma cerimônia conjunta em 2021. O governo espanhol rejeitou o pedido "com toda firmeza", classificando a chegada dos espanhóis "há quinhentos anos" como algo que "não pode ser julgado à luz de considerações contemporâneas". Anos depois, já sob a presidência de Claudia Sheinbaum, o governo mexicano confirmou que o rei espanhol nunca respondeu à carta.
A Espanha segue sendo uma monarquia, com Felipe VI no trono, integrante da União Europeia e classificada como economia avançada — construída, em parte, sobre um sistema que extraiu ouro, prata e mão de obra escravizada de dois continentes diferentes sem nunca formalizar reconhecimento, reparação ou pedido de desculpas. VERBO já mostrou como Portugal seguiu roteiro semelhante com o Brasil — leia aqui — e como os Estados Unidos fizeram o mesmo com os povos indígenas do norte do continente — leia aqui. O padrão colonial se repete: quem cobrou nunca foi cobrado de volta.
Fontes:
- Population history of Indigenous peoples of the Americas — Wikipedia
- Cartagena, Colombia — Wikipedia
- The Silver of the Conquistadors — World History Encyclopedia
- Slavery in Cuba — Wikipedia
- López Obrador pidió al Rey de España que se disculpe — Infobae, 2019
- Rey Felipe VI no ha contestado carta de AMLO, responde Sheinbaum — El Sol de México