Todo endereço que existe na internet — cada domínio, cada bloco de IP, cada rota que o tráfego percorre entre um computador e outro — depende, na base, de um punhado de sistemas que quase ninguém enxerga: os servidores raiz do DNS, o protocolo de roteamento que decide por onde os dados passam, e a entidade que decide quem administra cada terminação de domínio (.com, .br, .ru, o que for). Não é retórica dizer que esses três sistemas são o alicerce técnico da internet — sem eles, não existe "digitar um endereço e chegar a algum lugar". E os três, mesmo depois de reformas reais que reduziram o controle direto dos Estados Unidos, continuam estruturalmente concentrados em jurisdição e infraestrutura americana — a ponto de duas agências do próprio governo americano operarem, hoje, parte física dessa espinha dorsal.
Isso não é a mesma coisa que dizer que os EUA podem, num piscar de olhos, desligar qualquer país que quiserem — a realidade é mais específica, mais verificável, e por isso mais séria do que a versão simplificada dessa afirmação. Este texto separa o que é fato documentado do que é exagero, com fonte para cada ponto.
Os 13 nomes que sustentam a internet — e quem está por trás de cada um
Toda consulta DNS que não está em cache de ninguém, em algum ponto, sobe até um dos 13 "servidores raiz" — nomeados de A a M. Eles guardam o mapa mestre de quais organizações administram cada domínio de topo (.com, .org, .br, .ru, e por aí vai) e respondem, todos, com exatamente a mesma informação: não existe hierarquia entre eles, é redundância pura. Mas a redundância não significa neutralidade de quem opera cada um. Segundo a própria ICANN e a IANA, a distribuição de operadores é esta:
- A e J — Verisign, empresa americana de capital aberto;
- B — University of Southern California (Information Sciences Institute), instituição americana;
- C — Cogent Communications, provedora de internet americana;
- D — University of Maryland, instituição americana;
- E — NASA (Ames Research Center) — uma agência do governo dos Estados Unidos;
- F — Internet Systems Consortium, organização sem fins lucrativos americana;
- G — Departamento de Defesa dos Estados Unidos (via seu Network Information Center);
- H — Laboratório de Pesquisa do Exército dos Estados Unidos (US Army Research Lab);
- I — Netnod, organização sueca;
- K — RIPE NCC, registro regional de internet sediado na Holanda;
- L — ICANN, organização sem fins lucrativos americana (Califórnia);
- M — WIDE Project, consórcio de universidades japonês.
Contando: dez dos treze operadores são organizações americanas — e dois deles não são empresas nem universidades, são literalmente uma ala do Pentágono e um laboratório do Exército dos Estados Unidos administrando parte da infraestrutura de nomes que o mundo inteiro usa todos os dias. Os outros três operadores — Suécia, Holanda e Japão — são as únicas exceções fora da órbita direta americana.
Uma ressalva técnica importante, pra não superestimar o que isso significa na prática: a maioria desses 13 nomes roda hoje sobre uma tecnologia chamada anycast, que espalha centenas de cópias físicas de cada servidor por data centers ao redor do mundo — inclusive fora dos Estados Unidos, possivelmente até no Brasil. Ou seja, a pergunta "quem responde fisicamente a uma consulta minha" e "quem administra e decide o conteúdo daquilo que é respondido" são perguntas diferentes. A primeira é distribuída globalmente por questão de latência. A segunda — quem é, de fato, responsável por cada um desses 13 nomes — é a concentração que a lista acima documenta, e essa não muda com anycast nenhum.
Quem decide o que está na lista, afinal
Não são navegadores, nem usuários, nem "os americanos" no sentido vago, que escolhem qual dos 13 nomes vai responder a uma consulta específica — isso é decidido automaticamente pelo software de resolução de DNS, com base em qual servidor responde mais rápido. O ponto de concentração real é outro: a lista oficial de quais são os 13 nomes, seus endereços e o conteúdo que cada um deve responder — o chamado arquivo de zona raiz — é definida e publicada por uma única entidade: a IANA (Internet Assigned Numbers Authority), hoje operada pela Public Technical Identifiers, afiliada da ICANN — organização sem fins lucrativos incorporada no estado da Califórnia, sujeita a lei americana. Praticamente todo software de DNS do planeta, seja lá quem o fabrique, confia nesse arquivo único, de origem única.
Até 2016, essa função rodava sob um contrato direto entre a ICANN e o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, por meio da NTIA (National Telecommunications and Information Administration) — ou seja, havia supervisão formal e contratual do governo americano sobre mudanças na zona raiz. Esse contrato expirou em 1º de outubro de 2016, e a NTIA formalmente liberou a Verisign da obrigação de pedir autorização do governo americano pra alterar o arquivo da zona raiz, transferindo a responsabilidade prática pra uma estrutura de prestação de contas multissetorial global — a chamada "transição de custódia do IANA". É um fato real, verificável, e vale registrar sem diminuir: o controle contratual direto e formal do governo dos Estados Unidos sobre essa função específica terminou ali. O que não terminou é a jurisdição: a organização que assumiu essa responsabilidade continua sendo americana, e a empresa que efetivamente processa as mudanças técnicas na zona raiz — a Verisign — também.
Quem manda tirar (ou dar) um domínio de topo — e os dois casos que mostram os limites disso
A IANA também administra o processo de "delegação": autorizar (ou revogar) quem controla cada domínio de topo, incluindo os de país (ccTLD, como .br, .ru, .cn) e os genéricos (gTLD, como .com, .org). Pra domínios de país, o processo formal exige consulta ao governo do território — mas quem toma a decisão final, tecnicamente, é a IANA/ICANN.
Dois episódios recentes mostram, com bastante clareza, tanto o poder quanto os limites reais desse controle:
Em 28 de fevereiro de 2022, dias depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, o vice-primeiro-ministro ucraniano Mykhailo Fedorov pediu formalmente à ICANN que revogasse os domínios russos .ru, .рф e .su da zona raiz e desligasse os servidores DNS operando em território russo — um pedido explícito pra "desligar" a presença online de um país inteiro usando exatamente esse mecanismo central. A ICANN recusou. O CEO da organização, Göran Marby, respondeu publicamente que a entidade é um corpo técnico independente e precisa manter neutralidade geopolítica pra garantir que a comunicação global continue disponível pra todo mundo — e que esse tipo de ação, além de sair do mandato técnico da ICANN, poderia fragmentar a própria arquitetura da internet. Na prática: mesmo sob pressão direta, em guerra, pedindo a ação mais extrema possível contra um país específico, a entidade que tecnicamente detém esse poder optou por não usá-lo — o que é, ao mesmo tempo, prova de que o mecanismo existe e prova de que seu uso unilateral enfrenta resistência institucional real.
Em outubro de 2024, o Reino Unido concordou em transferir a soberania do Arquipélago de Chagos para a Maurícia — território que corresponde exatamente ao "Território Britânico do Oceano Índico", cujo código de país é a origem do domínio .io, hoje popular globalmente entre empresas de tecnologia por parecer a sigla "input/output". Segundo análise da própria ICANN sobre o caso, se o código BIOT for formalmente removido da lista internacional de códigos de país (ISO 3166-1) por causa da mudança de soberania, existe base processual pra encerrar o .io como domínio — a política da ICANN prevê um período de transição de até cinco anos nesse tipo de caso. É um exemplo direto de como a existência de um domínio de topo inteiro, usado por milhões de sites no mundo todo, está amarrada a uma decisão de soberania territorial tomada em outro contexto completamente diferente — geopolítica colonial resolvida em Londres decidindo o destino de uma infraestrutura técnica usada por startups do mundo inteiro.
De onde vem o bloco de IP: a hierarquia que ninguém vê, e onde o Brasil entra nela
Endereço IP não é atribuído de qualquer jeito, nem por um único órgão central distribuindo diretamente pra cada roteador do planeta — existe uma hierarquia formal, com quatro camadas. No topo, a IANA aloca blocos grandes de endereços pra cinco Registros Regionais de Internet (RIRs), cada um responsável por um continente: ARIN (América do Norte), RIPE NCC (Europa, Oriente Médio e parte da Ásia Central), APNIC (Ásia-Pacífico), AFRINIC (África) e LACNIC (América Latina e Caribe — é sob esse último que o Brasil está). Os RIRs, por sua vez, alocam blocos menores pra Registros de Internet Locais (LIRs) — normalmente provedores de internet e grandes empresas — que finalmente distribuem endereços pros usuários finais. Os RIRs se descrevem, e de fato operam, como organizações sem fins lucrativos com política definida de baixo pra cima pelos próprios participantes do setor, não como braços de governo — uma estrutura de fato mais distribuída do que a da zona raiz do DNS.
Dentro dessa estrutura, o Brasil não é só um consumidor passivo de infraestrutura estrangeira — tem seu próprio arranjo de governança, criado de forma deliberada há trinta anos, e citado internacionalmente como referência. O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) foi criado em 31 de maio de 1995, por portaria interministerial conjunta dos Ministérios das Comunicações e da Ciência e Tecnologia, com o objetivo explícito de coordenar a internet no país sem concentrar essa decisão nem só no governo, nem só no setor privado. Desde o Decreto nº 4.829/2003, sua composição é fixa: 9 representantes do governo, 4 do setor empresarial, 4 do terceiro setor, 3 da comunidade científica e tecnológica e 1 de notório saber em internet — 21 membros ao todo, nenhum bloco com maioria isolada.
Em 2005, o CGI.br criou o NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), organização civil sem fins lucrativos que executa, na prática, as decisões do comitê. Dentro do NIC.br estão duas peças que qualquer usuário de internet brasileiro depende diariamente, mesmo sem saber: o Registro.br, responsável desde 1995 pelo registro de domínios .br e pela administração desse domínio de topo nacional — ou seja, é o Brasil, e não uma entidade americana, que decide quem pode registrar o quê sob .br —; e o IX.br, a rede de pontos de troca de tráfego do país, que permite que provedores brasileiros troquem tráfego diretamente entre si, sem precisar que os dados saiam do território pra alcançar outro provedor nacional. O IX.br não é um projeto simbólico: em registro divulgado pelo próprio NIC.br, o sistema já superou a marca de 31 Tbit/s de tráfego agregado em pico, distribuído por 36 pontos de presença nas cinco regiões do país — o ponto de São Paulo isoladamente chegou a 22 Tbit/s, e tanto Fortaleza quanto o Rio de Janeiro entraram no top 10 mundial de tráfego de pico entre pontos de troca de internet. O modelo se sustenta com receita da própria venda de domínios .br, reinvestida na infraestrutura — o oposto do modelo em que a zona raiz global e a maior parte de seus operadores dependem de organizações sediadas fora do país que usa a infraestrutura.
Vale uma ressalva de precisão: nem tudo é soberania plena. A alocação de blocos de IP pro Brasil ainda passa pela LACNIC, sediada no Uruguai — não é uma decisão 100% doméstica —, e a infraestrutura física de cabos submarinos que conecta o Brasil ao resto do mundo (com a exceção parcial do cabo EllaLink, já coberto neste espaço, ligando Fortaleza a Portugal sem passar pelos EUA) segue majoritariamente dependente de rotas internacionais fora do controle brasileiro. Mas, na camada onde o Brasil efetivamente pode agir — administração do próprio domínio de topo, troca de tráfego doméstico e governança multissetorial da política de internet local —, o país construiu, de fato, uma das estruturas mais desenvolvidas e mais elogiadas internacionalmente entre os países em desenvolvimento.
O outro lado do problema: sequestro de rota, não sequestro de bloco de IP
Existe uma segunda vulnerabilidade, estrutural e distinta da anterior, que costuma ser confundida com "controle de endereços IP" — mas é outra coisa: o roteamento entre redes na internet, coordenado pelo protocolo BGP (Border Gateway Protocol), foi desenhado nos anos 1980 sem nenhum mecanismo de autenticação criptográfica embutido. Isso significa que, tecnicamente, qualquer operador de rede pode anunciar pra seus vizinhos "o tráfego pra este bloco de endereços passa por mim" — mesmo sem ser o dono legítimo daquele bloco — e, se essa mensagem se propagar, o tráfego mundial destinado àquele endereço passa a ser desviado pra rede de quem fez o anúncio falso. Esse mecanismo, batizado de "sequestro de BGP" (BGP hijacking), significa na prática que qualquer roteador no meio do caminho pode, tecnicamente, redirecionar o tráfego de qualquer servidor — e o dono do servidor original só percebe o problema se estiver monitorando ativamente sua visibilidade global, porque, por definição, ele só vê o tráfego que efetivamente chega até ele.
Isso não é hipótese teórica — aconteceu, de formas documentadas, por motivos diferentes:
- Em 24 de fevereiro de 2008, a operadora estatal Pakistan Telecom, tentando bloquear o YouTube apenas dentro do Paquistão por ordem do governo local, anunciou por engano uma rota mais específica pro bloco de IP do YouTube — e essa rota se espalhou pela internet inteira, tirando o YouTube do ar globalmente por cerca de duas horas. Foi um acidente, não um ataque, mas provou de forma inequívoca que qualquer operador, em qualquer lugar do mundo, pode desviar o tráfego de qualquer serviço, mesmo sem querer.
- Ao longo de 2013, a empresa de monitoramento de rede Renesys documentou dezenas de episódios em que rotas BGP foram sequestradas de propósito, desviando tráfego de instituições financeiras, provedores de VoIP e órgãos de governo de países como Estados Unidos, Coreia do Sul, Alemanha, República Tcheca, Lituânia, Líbia e Irã através de redes na Bielorrússia e na Islândia — sem que a autoria fosse definitivamente identificada publicamente.
- Um estudo acadêmico de 2018, de pesquisadores do Naval War College dos EUA e da Universidade de Tel Aviv, publicado na revista Military Cyber Affairs, documentou o uso sistemático de sequestro de BGP pela operadora estatal China Telecom pra desviar tráfego — incluindo, em episódios específicos, algo em torno de 15% do tráfego global de internet em determinados momentos — por instituições financeiras, órgãos de governo e veículos de mídia ocidentais, descrevendo isso como parte de esforços de espionagem estatal e comercial.
- Em 24 de abril de 2018, um sequestro de BGP contra o serviço de DNS Route 53, da Amazon, redirecionou parte do tráfego destinado à carteira de criptomoedas MyEtherWallet.com pra um servidor controlado por criminosos, que serviu uma cópia falsa do site e roubou o equivalente a mais de US$ 150 mil em Ethereum de usuários que não perceberam a diferença.
- Em 27 de janeiro de 2023, segundo monitoramento da Cisco ThousandEyes, uma rota falsa para o bloco IPv6 do próprio F-Root — um dos 13 servidores raiz, mantido pelo Internet Systems Consortium — foi vista sendo anunciada a partir do sistema autônomo AS24028, registrado em nome da operadora REDtone, na Malásia. Isso mira a infraestrutura raiz do DNS diretamente, não um site qualquer. O anúncio falso teve propagação mínima, visto por um único ponto de observação global, em Singapura — resultado direto de o bloco do F-Root já estar protegido por uma autorização RPKI assinada, que faz redes validadoras rejeitarem automaticamente anúncios não autorizados daquele endereço.
- Em 28 de abril de 2023, o mesmo tipo de evento se repetiu contra o L-Root, mantido pela ICANN: uma rota falsa para o bloco IPv4 do L-Root foi vista partindo do sistema autônomo AS137661, registrado em nome da Rajcomp Info Services, ligada ao governo do estado indiano do Rajastão. De novo, a proteção RPKI limitou a propagação real do sequestro. Em nenhum dos dois casos há confirmação pública de quem originou o anúncio, nem por quê: o monitoramento de BGP mostra de qual sistema autônomo a rota falsa saiu, não quem o operava naquele momento, nem se houve invasão, uso indevido ou simples erro de configuração — como no Paquistão em 2008. E rotear um ataque por infraestrutura de um terceiro país, de preferência um rival declarado, é tática elementar tanto pra esconder a autoria quanto pra empurrar a culpa pra cima de um inimigo conveniente. Isso não anula os casos de ação estatal demonstrada por outros meios — o estudo sobre a China Telecom tem metodologia própria, não se limita a observar qual AS apareceu num anúncio —, mas cada novo incidente atribuído "a tal país" merece a mesma pergunta: a evidência é só de origem técnica, ou de autoria comprovada?
O que esses seis casos, juntos, mostram é mais nuançado do que "a internet pode ser desligada por quem quiser, quando quiser" — e também mais preocupante do que "isso é teoria, nunca aconteceu de verdade". Rotas falsas pra blocos de IP alheios já saíram de sistemas autônomos por acidente (Paquistão, 2008), a serviço de crime comum atrás de dinheiro (MyEtherWallet, 2018), como parte de uma campanha sistemática documentada por pesquisa acadêmica e atribuída à operadora estatal chinesa (China Telecom, segundo o estudo de 2018), e, com autoria ainda desconhecida, a partir de infraestrutura registrada na Malásia e na Índia, mirando diretamente os próprios servidores raiz do DNS em 2023: não "a internet" em abstrato, mas o alvo mais crítico e mais monitorado que existe. E, nesses dois casos mais recentes, contra o alvo mais protegido também: os anúncios falsos de 2023 tiveram propagação quase nula porque os blocos de IP dos servidores raiz atingidos já estavam protegidos por autorizações RPKI assinadas por seus operadores legítimos (ISC e ICANN). A defesa técnica que existe hoje — esse sistema de assinatura criptográfica de rotas — segue incompleto na internet como um todo: estimativas de 2026 apontam adoção em torno de 40% das redes do mundo, o que significa que a maioria dos sites, servidores e serviços comuns — ao contrário dos servidores raiz — ainda aceita anúncios de rota sem verificação criptográfica nenhuma, exatamente a lacuna que permitiu o roubo da MyEtherWallet em 2018.
O endereço que chega até você não prova, sozinho, de onde ele realmente veio.
A vantagem americana não precisa de sequestro nenhum
Aqui está o ponto que conecta esse problema de volta a algo que este mesmo espaço já documentou: os Estados Unidos não precisam recorrer a sequestro de rota pra interceptar tráfego alheio, porque boa parte do tráfego mundial já passa, legalmente, por infraestrutura sob jurisdição americana — o que os próprios documentos revelados por Edward Snowden em 2013 descreveram como "vantagem de campo" (home-field advantage). Os programas batizados BLARNEY, FAIRVIEW, OAKSTAR e STORMBREW, operados pela NSA em parceria formal e remunerada com operadoras de telecomunicação americanas, davam acesso direto a cabos de fibra óptica de alta capacidade — sem precisar forjar rota nenhuma, porque o tráfego já passava por ali de qualquer forma. É a versão legal, contratual e muito mais discreta do mesmo problema de fundo: quem controla a infraestrutura por onde o tráfego mundial efetivamente passa tem acesso a esse tráfego, sequestro de rota ou não.
Multilateral ou multissetorial — o debate que os próprios governos já tiveram sobre isso
A concentração documentada nas seções acima não passou despercebida por outros países — e a reação institucional a ela já rendeu, pelo menos, duas rodadas sérias de disputa diplomática, com posições que vale diferenciar com cuidado, porque não são a mesma coisa.
Em dezembro de 2012, na Conferência Mundial de Telecomunicações Internacionais da ONU (WCIT), em Dubai, Rússia, China, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Sudão e Egito propuseram uma revisão do tratado internacional de telecomunicações que daria aos governos nacionais — coletivamente, através da União Internacional de Telecomunicações (ITU), agência da ONU — poder formal sobre a atribuição de recursos de numeração, nomeação e endereçamento da internet, hoje concentrada na ICANN. Estados Unidos e a maioria dos países da Europa, América Latina e Ásia-Pacífico rejeitaram a proposta, defendendo o modelo atual, dito "multissetorial" (multistakeholder), em que empresas, sociedade civil e governos participam juntos, sem um bloco de governos tendo poder de veto centralizado. A conferência terminou sem consenso: 89 países assinaram o tratado revisado, 55 não assinaram — entre os que recusaram estava justamente o bloco liderado por Estados Unidos e países ocidentais.
Mas reduzir essa disputa a "autoritários contra democracias" simplifica demais uma divisão que já apareceu de forma mais matizada depois. Brasil, Índia e África do Sul historicamente não se alinharam automaticamente nem com o bloco Rússia-China (que defende controle multilateral, ou seja, decisão concentrada entre Estados, no modelo da ONU) nem com a defesa irrestrita do status quo americano — defenderam, em vez disso, uma reforma do próprio modelo multissetorial pra torná-lo mais transparente e menos dependente de uma jurisdição nacional específica. O Brasil, já coberto neste espaço por seu papel nas revelações de espionagem de 2013, foi além do discurso: sediou o NETmundial em São Paulo, em 2014, evento que reuniu governos, empresas e sociedade civil especificamente pra debater esse tema, defendendo publicamente uma governança "aberta, multilateral e democrática, conduzida com transparência, estimulando a criatividade coletiva e a participação da sociedade, dos governos e do setor privado" — uma terceira via, distinta tanto do controle estatal centralizado quanto da concentração informal em instituições de jurisdição americana.
O que fica, sem exagero e sem minimizar
Juntando os fatos verificados: os Estados Unidos não têm hoje controle contratual direto e formal sobre a zona raiz do DNS — esse contrato específico com o governo americano terminou em 2016. A ICANN não é um instrumento oficial do governo americano, e já demonstrou, no caso ucraniano, resistência institucional a um pedido de desligar um país inteiro. O sequestro de rota BGP, mecanismo técnico real que permite redirecionar tráfego de qualquer bloco de IP do mundo sem que o dono perceba, já foi documentado sendo usado por operadoras de pelo menos dois países diferentes, além de criminosos comuns — não é ferramenta exclusiva de nenhum governo específico.
Dito isso, a concentração estrutural é real e seria desonesto minimizá-la: dez dos treze servidores raiz do DNS são operados por organizações americanas, incluindo duas agências do próprio governo dos Estados Unidos; a organização que hoje decide sozinha o conteúdo da zona raiz do mundo inteiro é uma entidade sem fins lucrativos sediada na Califórnia; a empresa que processa essas mudanças na prática é americana; e o motivo pelo qual os EUA raramente precisam recorrer a sequestro de rota pra acessar tráfego alheio é que boa parte desse tráfego já passa, de forma legal e documentada, por cabos e operadoras sob jurisdição americana. Não é controle absoluto, unilateral e sem checagem nenhuma — mas também está longe de ser um sistema neutro e equidistante entre países. É concentração real, com limites reais, e ambas as partes dessa frase importam pra entender o problema direito.
Fontes:
- Regional Internet registry — Wikipedia
- Regional Internet Registries — Number Resource Organization (NRO)
- Com modelo multissetorial pioneiro e inovador, CGI.br completa 30 anos como pilar da governança da Internet no Brasil — CGI.br
- Regimento Interno do Comitê Gestor da Internet no Brasil — CGI.br
- In a new record, IX.br surpasses 31 Tbit/s of peak Internet traffic exchange — NIC.br
- IX.br — Wikipedia
- The Root Server System — ICANN
- Root Servers — IANA
- YouTube Hijacking (February 24th 2008): Analysis of BGP Routing Dynamics — Google Research
- YouTube Hijacking: A RIPE NCC RIS case study — RIPE NCC
- Mystery traffic redirection attack pulls net traffic through Belarus, Iceland — The Register
- China's Maxim – Leave No Access Point Unexploited: The Hidden Story of China Telecom's BGP Hijacking — Military Cyber Affairs (Demchak & Shavitt, 2018)
- BGP routing security flaw caused Amazon Route 53 incident — TechTarget
- Amazon DNS service server hijacked for $152,000 Ether theft — CyberScoop
- Monitoring Root DNS Prefixes — Cisco ThousandEyes (sequestros de rota contra F-Root e L-Root em 2023)
- RPKI - The required cryptographic upgrade to BGP routing — Cloudflare Blog
- Stewardship of IANA Functions Transitions to Global Internet Community as Contract with U.S. Government Ends — ICANN
- IANA Stewardship Transition Completed — IANA
- Q and A on IANA Stewardship Transition — NTIA
- Delegating or transferring a country-code top-level domain (ccTLD) — IANA
- Ukraine asked ICANN to revoke Russian domains, shut DNS servers — CNBC
- ICANN rejects Ukraine's request to remove Russian domains — The Register
- The Chagos Archipelago and the .io domain — ICANN
- WCIT — China, Russia And Others Withdraw Bid For Internet Control — Silicon UK
- The Cold War for Internet Governance: What are India's Options? — Australian Institute of International Affairs
- Internet governance: Brazil taking the lead in international debates — Index on Censorship